domingo, 16 de outubro de 2011

Os X-Men, os quadrinhos e eu

Dos oito (1993) aos quinze anos, as histórias em quadrinhos dos X-Men foram uma das coisas mais importantes da minha vida (dentre, realmente, todas as coisas que compõem o mundo – inclusive aquelas que não são coisas, as pessoas). Nesse período, eu comprava também, às vezes, Os Novos Titãs, Wolverine ou alguma mini-série que reunisse muitos super-heróis, os crossovers, mas o título da equipe mutante era sagrado.


Não creio que a coincidência explique a preferência, mas, estranhamente – pela quantidade de anos passados –, lembro que o primeiro gibi que comprei (ou que fiz minha mãe comprar) foi, justamente, X-Men Classic nº 1 (setembro de 1993 – da editora Abril, assim como todos os gibis nacionais citados nesse texto), que republicava aqui no Brasil a primeira aparição da segunda geração da equipe mutante (com Wolverine, Tempestade, Colossus e Noturno, além de Banshee, Solaris e Pássaro Trovejante) – a história fora publicada aqui, anteriormente, em Superaventuras Marvel nº 16 (outubro de 1983), quando eu nem sequer era um projeto. Para quem não conhece a importância dessa história para o desenvolvimento da equipe, é necessário retomar a trajetória dos “filhos do átomo”.

Criados por Stan Lee e Jack Kirby, os X-Men foram publicados pela primeira vez em título homônimo (que, depois, passou a ser The Uncanny X-Men), lançado em setembro de 1963, nos Estados Unidos da América, pela editora Marvel Comics (para a qual, Lee e Kirby – além de Steve Ditko, Bill Everett, Don Heck, Larry Lieber – criaram todo um panteão moderno com: Quarteto Fantástico, Homem-Aranha, Hulk, Thor, Homem de Ferro, os Vingadores e Demolidor – todos, a essa altura, já bem ou mal cinematografados). A equipe se diferencia dos outros super-heróis por seus membros pertencerem a uma outra raça terrestre, o homo sapiens superior (mutantes), e, por isso, por já nascerem com super-poderes. No contexto das lutas dos direitos civis dos negros norte-americanos, o gibi teve (e tem) como temas principais o preconceito racial e a intolerância sofrida pelos mutantes por parte da humanidade “normal”, o homo sapiens. O pacifista Professor X e seu arquiinimigo, Magneto – tendo-os como matriz de criação ou não – são freqüentemente comparados a Martin Luther King e Malcolm X, respectivamente.

Mas mesmo com um pano de fundo desses (se é que isso poderia exercer alguma influência no quesito), o gibi sempre foi um dos mais fracos em vendas e, em seu nº 66 (março de 1970), foi cancelado – voltando às bancas no ano seguinte, apenas para republicar as histórias iniciais. O limbo para os personagens durou até maio de 1975, quando Lein Wein e Dave Cockrum apresentaram a segunda geração da equipe, na edição especial Giant-Size X-Men nº1, responsável pela retomada da produção de histórias inéditas para o título mutante, a partir do nº 94 (agosto de 1975). Com a entrada do roteirista Chris Claremont (nº 94) e do desenhista John Byrne (nº 108), o gibi se tornou sucesso de vendas e de crítica, e foram produzidas histórias como a do surgimento da Fênix, a saga de Proteus, a saga da Fênix Negra e Dias de Um Futuro Esquecido, que hoje são clássicos dos quadrinhos, tendo servido de matrizes para vários episódios do desenho animado X-Men (Fox Network, 1992) e de parte dos roteiros da trilogia mutante no cinema: X-Men (Bryan Singer – 2000), X-2 (Bryan Singer – 2003) e X-Men: The Last Stand (Brett Ratner – 2006) (aliás, é justamente nessa tradução entre formatos que um produto cultural encontra uma das principais maneiras de se tornar um clássico, ampliando o público que lhe tem acesso). Claremont permaneceu a frente da equipe por longos 17 anos, coisa rara (senão única) no mercado dos quadrinhos.


Apesar de me lembrar – com estranha nitidez – que X-Men Classic foi o primeiro gibi que comprei (aliás, só agora os chamo assim, “gibi”. Durante todo o tempo em que comprei, eu chamava simplesmente de “revista” ou “revista em quadrinho”), não sei se meu primeiro contato com os personagens se deu através do papel ou da tela, pois, em abril de 1993, estreou o programa infantil TV Colosso (da TV Globo), no qual era exibido o citado desenho animado X-Men. Se o desenho foi exibido desde a estréia do programa, é bem possível que eu tenha conhecido a equipe pela TV. Talvez tenha me influenciado a comprar o gibi. Mas não lembro o que veio primeiro.

Mesmo tendo gostado bastante desse desenho animado, minha relação forte com os mutantes, e que ultrapassou a infância, se deu mesmo pelos quadrinhos, até porque era uma relação não só com eles, mas com todo um universo de personagens – e ainda hoje me surpreendo quando, ao bater o olho num dos sacanas, consigo me lembrar de seus nomes e poderes –, artistas – com seus nomes ingleses estranhos para mim, e John Byrne, por exemplo, era John Báirni – e “diferenciados” cenários – Nova York, espaço sideral, Nova York, Atlântida, Nova York, Terra Selvagem e Nova York (os gringos sabem vender o peixe deles! Como vingança (e dizer isso só faz sentido – pouco, aliás – agora), Manhattan, para mim, era Manhã-tchan). Na verdade, foi uma relação com dois universos: o Marvel e, sempre em segundo lugar, o DC.

Embora comprasse bissextamente outros títulos, X-Men foi o único que eu realmente colecionei. Lembro até mesmo qual foi a primeira edição do título mensal deles que comprei, o nº 67 (maio de 1994). Daí em diante, foram muitas as sagas que acompanhei com avidez nesse gibi: Programa de Extermínio, a volta do professor X a Terra e o confronto com o Rei das Sombras, a divisão da equipe em duas (a azul e a dourada), Era do Apocalipse, Massacre... Assim como as histórias dos outros grupos de “mutunas” (Novos Mutantes, X-Factor e X-Force), publicadas na revista que, em formatinho e com suas 84 páginas, permitia a publicação de três títulos originais americanos em cada número.
 
Tive a sorte de começar a comprar X-Men justamente na fase inicial do trabalho do desenhista Jim Lee no título. A importância dele se expressa nos fatos de que, além de sua arte ter sido a base do citado desenho animado, que ajudou a popularizar a equipe, a edição nº1 do segundo título dos X-Men nos EUA, também homônimo, criado por ele e Chris Claremont e lançado em outubro de 1991, é, até hoje, o gibi com o maior número de vendas da história, segundo o Guinness, com 8.1 milhões de cópias vendidas. Quando esse título começou a ser publicado aqui (em janeiro de 1996) – em formato americano, inclusive – tentei colecioná-lo também, mas deu não. Era muito custo pro pobretão aqui, e eu comprava, então, sempre que podia.

Uma das coisas mais interessantes em colecionar essa revista foi que a corrida se deu para frente, comprando mensalmente, mas, também, para trás, pois comecei a comprá-la já no nº 67. Descobri então um lugar que, no período entre a infância até o início da adolescência, fazia minha felicidade mais do que praia, parque, rua ou qualquer outro: o sebo! O único que eu conhecia é um que fica, até hoje, no fim de linha da Barroquinha. Sempre que eu podia, pongava em minha mãe em suas idas a Salvador, para dar uma passada lá e, além de ter um contato em dose cavalar com uma porrada de títulos (só folheá-los já fazia o meu prazer), tentar realizar minhas prioridades: encontrar sagas clássicas das quais eu só ouvira falar, como Guerras Secretas e Crise nas Infinitas Terras e, claro, completar minha coleção de X-Men. Minha mãe me dava pouco mais de dez minutos e eu saia, então, procurando feito louco para encontrar os quatro ou cinco números que o dinheiro permitia comprar, a 25 ou 50 centavos cada. Na viagem de volta para casa – coisa de 50 minutos da Lapa até Simões Filho – pouco me importava se eu estava de pé e o ônibus cheio: a leitura começava ali mesmo! Foi nesse sebo que comprei a primeira parte da Saga da Fênix Negra, publicada aqui no Brasil em Marvel Especial nº 07, de novembro de 1989 (a parte final, até hoje não li, nunca a tendo encontrado no sebo), certamente a saga que mais gostei – mesmo sem ter lido a conclusão! –, junto com a citada Crise. Também ali encontrei quase todos os 66 números que me faltavam para completar a coleção de X-Men.

Em Simões Filho – cidade que hoje tem cerca de 120 mil habitantes – havia apenas duas bancas de revista (acho que ainda é assim), uma na Praça da Bandeira e outra no CIA I, em frente ao colégio em que cursei o ensino fundamental e o médio, o famigerado “Colejão”. Foi nessa segunda que gastei boa parte do dinheiro da merenda que eu economizava não sei quantas vezes por semana ou daquele que eu conseguia com meu avô. Até o dia em que inventei de “guelar” uma das revistas da banca (o nº 1 da mini-série Cable: Sangue e Metal, de fevereiro de 1996). Fui pego pela atendente e expulso da banca sob ameaça de receber cascudos que “arrancariam o couro da minha cabeça”, disse ela. A banca era alvo de alguns dos meninos da escola, que preferiam a revista de esportes Placar. Até mesmo eu, que nunca fui um bad-boy, já tinha conseguido surrupiar algo de lá, uma revista sobre os personagens do videogame Mortal Kombat (aliás, houve outra vez, que eu me lembre, que os quadrinhos incitaram meu lado gatuno, quando passei a mão em dois reais deixados na mesa de casa para comprar um número de A Espada Selvagem de Conan – a culpa foi dos desenhos! Eram muito bonitos! –. Deu confusão essa história...). Depois da tentativa frustrada, fui obrigado a passar alguns meses me deslocando à Praça da Bandeira, até que a atendente fosse trocada ou que passasse tempo suficiente para que ela esquecesse da minha cara (pena que barba não cresce aos dez anos de idade). Era uma caminhada de coisa de 40 minutos, do “Colejão” até lá. Certa vez, indo a essa segunda banca, numa das minhas típicas maluquices infantis, eu decidi prender a urina, não sei bem por qual motivo – tanto lugar pra mijar na rua, porra! – e, resultado: me mijei em plena banca de revista, após ter pago pelo que queria comprar ali. Ainda me lembro de fingir para algumas meninas, que me encontraram a caminho de casa, que tinha sido apenas suco que caíra em minha calça.
 
Nesses sete ou oito anos em que comprei e li histórias em quadrinhos, encontrei pouco mais do que meia dúzia de gatos pingados com quem conversei pelo menos uma vez sobre o assunto. Metade deles foi comprador ocasional, não mais do que por poucos meses. Na rua de trás da minha casa, havia um cara, cerca de seis ou sete anos mais velho do que eu, que tinha uma coleção consistente, talvez maior do que a minha (que, no auge, chegou a ter, no máximo, 400 exemplares). Conversei com esse cara algumas vezes e sempre perguntava a ele sobre a origem de alguns super-heróis, sobre as cronologias dos títulos, sobre quem desenhava ou escrevia o que em tal época, essas coisas. Ainda me lembro do dia em que um primo meu (um dos citados gatos pingados inclusive, que comprou uns dois ou três números de Wolverine e Conan, O Bárbaro, em 1993 ou 94, dois ou três anos antes desse caso que relato), cinco anos mais velho do que eu, ao ver o cara chegando na porta da minha casa com um saco de revistas em quadrinhos, dizer: “Ah, agora entendi! Esse cara é mongolóide, mesmo! Ele lê essas revistas!”. Logo retruquei: “Ei! Mas eu também leio essas revistas e não sou mongolóide!”, e ele: “Ah, mas você é pequeno ainda!”. Acho que por volta dos 20 anos o “mongolóide” deixou de ler “essas revistas”, pois perdi o contato com ele. Deve ter arrumado alguma namorada. Além dele, havia também um filho da mulher de um tio meu, com quem juntei, em 1998, os cerca de 40 reais necessários para comprar a saga Massacre, publicada em mais de 15 títulos, ao longo de três meses. E havia também Toni, o único de todos esses que realmente era um amigo e com quem dividi, da infância até a adolescência, além do interesse pelas histórias em quadrinhos, a prática do desenho – a outra atividade a que dediquei muitas horas de minha existência, até antes que a adolescência realmente engrenasse em mim, por volta dos 16. Até ali, a única coisa com que eu queria trabalhar era como desenhista. E, claro, tinha de ser na Marvel (até comecei a fazer aulas de inglês, aos 14 anos, afinal, a Marvel fica em Nova York, né?)!


Do 67 ao 141, o último em formatinho (lançado em julho de 2000), devo ter deixado de comprar, no máximo, uns dois ou três números da revista (era eu quem sustentava os Civita!). Quando comecei a coleção, o gibi custava R$ 1,55, no início do Plano Real. Por volta do número 100 (fevereiro de 1997), o preço era R$ 2,30. Nos últimos números, já com 100 páginas, o preço era R$ 2,50. Em agosto de 2000, a editora Abril inventou de acabar com o formatinho e, no lugar, lançar a desgraça da linha Premium, com formato americano, 160 páginas, lombada quadrada e papel de “alta qualidade”, tudo isso por míseros R$ 9,90 mensais! Esse foi um dos mais fortes incentivos para que eu abandonasse os quadrinhos (e não me tornasse um “mongolóide”, como aquele da minha rua... Aliás, caso eu continuasse a comprar a revista com esse preço, realmente, esse seria um adjetivo muito bem aplicado a mim). Outro fator foi o crescimento da influência do mangá nos desenhos das revistas de super-heróis, o que diminuia o realismo do traço e tornava a coisa toda meio infantil, a meu ver.

Quanto à revista X-Men Premium, a dependência de colecionador me obrigou a continuar comprando (tá vendo, que de mongolóide eu tenho bastante?) e só parei mesmo no número 14, último gibi de que me lembro ter comprado. Em dezembro de 2001, amargando as baixas vendas da sua “pérola”, a Abril encerrou a publicação de super-heróis Marvel com os números 17 da linha Premium, passando os direitos à italiana Panini. A Abril havia iniciado a publicação desses super-heróis em junho de 1979, com Capitão América nº 1.

De lá pra cá, muita coisa (me) aconteceu e praticamente mal tive tempo pra pensar em quadrinhos ou em super-heróis. Nem a enxurrada de adaptações cinematográficas me empolgou – até porque, dentre essas muitas coisas que aconteceram, houve meu início de contato com o cinema cuja fórmula, nem sempre seguida, é a de não seguir fórmulas (contato esse que envolve, dentre várias outras coisas, lidar com a(s) hierarquia(s) entre produtos culturais...) – e só o primeiro Homem-Aranha (Sam Raimi, 2002) e, acho, Demolidor (Mark Steven Johnson, 2003), me levaram ao cinema, junto com a minha turma de até então – que, logo, também foi substituída. Quanto ao primeiro filme dos X-Men, acho que em 2000 eu ainda não tinha hábito de ir ao cinema e por isso só vi pela TV, anos depois.

Por conta de alguma maré de nostalgia que me bateu nos últimos meses, minhas fugas ao lúdico têm me levado aos arquivos em cdr (é só renomear para rar e exportar!) com coleções de histórias em quadrinhos que julguei não (re-)ver jamais. As impressionantes facilidades da internet me possibilitaram também encontrar os dados para compor esse texto – pois minha memória tem limite! Sei não se esse será meu último contato com esses seres de papel.