segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Riso ou conserto?

Minha nega na janela
Germano Mathias, 1957


Não sou de briga
Mas estou com a razão
Ainda ontem bateram na janela
Do meu barracão
Saltei de banda
Peguei da navalha e disse
Pula muleque abusado
E deixa de alegria pro meu lado

Minha nega na janela
Diz que está tirando linha
Êta nega tu é feia
Que parece macaquinha
Olhei pra ela e disse
Vai já pra cozinha
Dei um murro nela
E joguei ela dentro da pia
Quem foi que disse
Que essa nega não cabia?

domingo, 26 de setembro de 2010

Chicano's way of life

                      


          Obras de Jesse Trevino


                 Mis Hermanos, 1976                               


                  Los Comaradas del Barrio, 1976


                  Los Santos de San Antonio, 1979


                 Liria's, 1979
                                          
                                     

sábado, 25 de setembro de 2010

Oração ao Tempo

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os rítmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo...

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e migo
Tempo tempo tempo tempo...

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo...

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo...

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo...

Caetano Veloso

Crias dos anos 70




Harold and Maude (Hal Ashby, 1971), Johnny Got His Gun (Dalton Trumbo, 1971), McCabe & Mrs. Miller (Robert Altman, 1971), Walkabout (Nicholas Roeg, 1971), Jeremiah Johnson (Sidney Pollack, 1972), Taxi Driver (Martin Scorcese, 1976).

 
Como a fuga é a motivação aqui (vão se acostumando com explicação, vão...), só vou despejar minhas memórias sobre esses filmes dos quais gosto muito e dar alguns pitacos, pra treinar o ofício.

De Harold & Maude, guardo os planos gerais dos gramados verdes e a excentricidade dos protagonistas. Também a busca de poeticidade do roteiro, expressa na relação e no diálogo entre ambos. O violão, a doçura e os rosnados de Cat Stevens também jogam no mato essa pérola hippie.

Os dois personagens não são os mais bem construídos psicologicamente de todos os filmes tratados neste post. Mas são interpretados com muita entrega, apesar de fundados em clichês (embora reversos): o da velha/vida e o do novo/morte - e daí, o aprendizado, dele com ela. O uso da linguagem é competente, mas nada muito impressionante (com exceção da intrigante e irônica primeira seqüência, a do primeiro "suicídio" e dos citados planos gerais). Em geral, tem um 'que' de filme B.

De Johnny Got His Gun, lembro do simbolismo, do predomínio do onírico na narrativa - com o Jesus viril de Donald Sutherland e a arquetípica (como posso diferenciar isso de estereotípico? acho que o critério é agradar ou não...) - de pureza - namorada de Johnny. O efeito de agonia causado pela situação de Johnny (que está incomunicável) e por sua condenação a um resto de vida são os elementos mais fortes do filme, junto com o citado simbolismo. As interpretações são competentes, mas nada excepcional. Os personagens não são realísticos (na mesquinha concepção predominante de realidade), com suas carnes nubladas, como ademais é todo o filme. Lembro da cenografia também. De uma casa (que antes parecia uma casa de bonecas) destruída, com Johnny e sua namorada conversando, nas ruínas dela.

Como foi o filme que vi ontem, McCabe & Mrs. Miller é o que eu mais tenho sobre o que falar. Impressionante a fotografia de Vilmos Zsigmond, captando o lustro do gelo, a neblina ambiental e o musgo do chão. Nas seqüências internas, como a que McCabe joga cartas com os outros homens, com a lamparina acesa, a luz banha os objetos de uma maneira que me lembra quadros de Rembrandt. Nessa cena da lamparina, inclusive, a disposição dos atores no quadro lembra muito o A Lição de Anatomia do Dr. Tulp (1632). Talvez tenha sido uma influência. Um fino verniz de luz cobre a madeira das construções, que reservam um mínimo de calor (que em cores, porém, explode) contra o frio do brilho do gelo que impera nas externas. A fotografia é tão impressionante que a polifonia característica dos filmes de Altman quase emudece, de tão secundária. Embora não deixe de ser tocante a generosidade do diretor (que feito Deus, abarca a amplidão e a confusão da realidade), ao dar espaço à vaidade de um personagem coadjuvante ("Acho que vou fazer minha barba, o que acha? Vou deixar só o bigode").

O McCabe de Warren Beatty é carismático mesmo quando resmungão. Dando nome ao filme, o protagonista tem toda a fragilidade humana. Aliás, como toda a cidadezinha que está se erguendo, onde todos os habitantes parecem buscar alicerces uns nos outros, em busca de sobrevivência. No núcleo principal, essa busca fica ainda mais visível nas constantes propostas de parceria feitas a McCabe. Há também uma alegria brotando de toda essa adversidade (ambiental e humana), como na relação familiar e sexual/comercial estabelecida entre os homens da cidade e as mulheres do prostíbulo.

Mrs. Miller é vivida linda e selvagemmente por Julie Christie. O amor não vivido entre ela e McCabe é mais alguma coisa que fica de fora, e por isso mesmo se faz presente, nesse filme que espreita a morte. Essa, que recai gratuitamente no sedento (por sexo) cowboy com cara de bobão vivido pelo estreante Keith Carradine. O folk de Leonard Cohen também contribui para a unidade do filme que, como um todo, lembra os primeiros discos da The Band. Com fiddle, inclusive, e um padre que é a cara de um dos integrantes da banda, o Robbie Robertson dessa época. História americana no dialeto ácido dos anos 60/70 (aquilo que se fez mais visível desse período).

Em Walkbout, a montagem é o principal. As alusões aos desejos sexuais do jovem aborígene (David Gulpilil) e da linda e juvenil 'menina' (personagem de Jenny Agutter), através de metáforas entre troncos e galhos das árvores e os corpos dos dois jovens é bastante original. O encontro com o outro, sempre contingente e formador da passagem, é o tema do filme, que vejo nele. Os big closes no escorpião e em algo mais que é encontrado no caminho também provocam uma certa ruptura com a linguagem estabilizada comum à maioria dos filmes. Ruptura, aliás, é a tônica das fitas que compõem esse post. Filmes cult (feito pelos e para os alérgicos ao comum). O surto de loucura do pai dos jovens brancos australianos caminha nessa direção, embora embalado pela Gasoline Alley de Rod Stewart.

De Jeremiah Johnson, só lembro da solidão e da perseverança do personagem de Robert Redford, em sua batalha contra o índio Paints His Shirt Red (Joaquín Martínez), e de uma das seqüências finais, talvez a última, com fusões de cenas de vários confrontos entre os dois, em diferentes períodos.

Por fim, o mais famoso e meu preferido desses seis, junto com o Harold and Maude. Solidão é o forte em Taxi Driver. E o mundo interior que brota disso. Tão propício a fugas. Nova York é a melhor coadjuvante desse conto, desse ensaio. É sua atraente decadência que mais persiste em minha memória.