Harold and Maude (Hal Ashby, 1971), Johnny Got His Gun (Dalton Trumbo, 1971), McCabe & Mrs. Miller (Robert Altman, 1971), Walkabout (Nicholas Roeg, 1971), Jeremiah Johnson (Sidney Pollack, 1972), Taxi Driver (Martin Scorcese, 1976).
Como a fuga é a motivação aqui (vão se acostumando com explicação, vão...), só vou despejar minhas memórias sobre esses filmes dos quais gosto muito e dar alguns pitacos, pra treinar o ofício.
De Harold & Maude, guardo os planos gerais dos gramados verdes e a excentricidade dos protagonistas. Também a busca de poeticidade do roteiro, expressa na relação e no diálogo entre ambos. O violão, a doçura e os rosnados de Cat Stevens também jogam no mato essa pérola hippie.
Os dois personagens não são os mais bem construídos psicologicamente de todos os filmes tratados neste post. Mas são interpretados com muita entrega, apesar de fundados em clichês (embora reversos): o da velha/vida e o do novo/morte - e daí, o aprendizado, dele com ela. O uso da linguagem é competente, mas nada muito impressionante (com exceção da intrigante e irônica primeira seqüência, a do primeiro "suicídio" e dos citados planos gerais). Em geral, tem um 'que' de filme B.
De Johnny Got His Gun, lembro do simbolismo, do predomínio do onírico na narrativa - com o Jesus viril de Donald Sutherland e a arquetípica (como posso diferenciar isso de estereotípico? acho que o critério é agradar ou não...) - de pureza - namorada de Johnny. O efeito de agonia causado pela situação de Johnny (que está incomunicável) e por sua condenação a um resto de vida são os elementos mais fortes do filme, junto com o citado simbolismo. As interpretações são competentes, mas nada excepcional. Os personagens não são realísticos (na mesquinha concepção predominante de realidade), com suas carnes nubladas, como ademais é todo o filme. Lembro da cenografia também. De uma casa (que antes parecia uma casa de bonecas) destruída, com Johnny e sua namorada conversando, nas ruínas dela.
Como foi o filme que vi ontem, McCabe & Mrs. Miller é o que eu mais tenho sobre o que falar. Impressionante a fotografia de Vilmos Zsigmond, captando o lustro do gelo, a neblina ambiental e o musgo do chão. Nas seqüências internas, como a que McCabe joga cartas com os outros homens, com a lamparina acesa, a luz banha os objetos de uma maneira que me lembra quadros de Rembrandt. Nessa cena da lamparina, inclusive, a disposição dos atores no quadro lembra muito o A Lição de Anatomia do Dr. Tulp (1632). Talvez tenha sido uma influência. Um fino verniz de luz cobre a madeira das construções, que reservam um mínimo de calor (que em cores, porém, explode) contra o frio do brilho do gelo que impera nas externas. A fotografia é tão impressionante que a polifonia característica dos filmes de Altman quase emudece, de tão secundária. Embora não deixe de ser tocante a generosidade do diretor (que feito Deus, abarca a amplidão e a confusão da realidade), ao dar espaço à vaidade de um personagem coadjuvante ("Acho que vou fazer minha barba, o que acha? Vou deixar só o bigode").
O McCabe de Warren Beatty é carismático mesmo quando resmungão. Dando nome ao filme, o protagonista tem toda a fragilidade humana. Aliás, como toda a cidadezinha que está se erguendo, onde todos os habitantes parecem buscar alicerces uns nos outros, em busca de sobrevivência. No núcleo principal, essa busca fica ainda mais visível nas constantes propostas de parceria feitas a McCabe. Há também uma alegria brotando de toda essa adversidade (ambiental e humana), como na relação familiar e sexual/comercial estabelecida entre os homens da cidade e as mulheres do prostíbulo.
Mrs. Miller é vivida linda e selvagemmente por Julie Christie. O amor não vivido entre ela e McCabe é mais alguma coisa que fica de fora, e por isso mesmo se faz presente, nesse filme que espreita a morte. Essa, que recai gratuitamente no sedento (por sexo) cowboy com cara de bobão vivido pelo estreante Keith Carradine. O folk de Leonard Cohen também contribui para a unidade do filme que, como um todo, lembra os primeiros discos da The Band. Com fiddle, inclusive, e um padre que é a cara de um dos integrantes da banda, o Robbie Robertson dessa época. História americana no dialeto ácido dos anos 60/70 (aquilo que se fez mais visível desse período).
Em Walkbout, a montagem é o principal. As alusões aos desejos sexuais do jovem aborígene (David Gulpilil) e da linda e juvenil 'menina' (personagem de Jenny Agutter), através de metáforas entre troncos e galhos das árvores e os corpos dos dois jovens é bastante original. O encontro com o outro, sempre contingente e formador da passagem, é o tema do filme, que vejo nele. Os big closes no escorpião e em algo mais que é encontrado no caminho também provocam uma certa ruptura com a linguagem estabilizada comum à maioria dos filmes. Ruptura, aliás, é a tônica das fitas que compõem esse post. Filmes cult (feito pelos e para os alérgicos ao comum). O surto de loucura do pai dos jovens brancos australianos caminha nessa direção, embora embalado pela Gasoline Alley de Rod Stewart.
De Jeremiah Johnson, só lembro da solidão e da perseverança do personagem de Robert Redford, em sua batalha contra o índio Paints His Shirt Red (Joaquín Martínez), e de uma das seqüências finais, talvez a última, com fusões de cenas de vários confrontos entre os dois, em diferentes períodos.
Por fim, o mais famoso e meu preferido desses seis, junto com o Harold and Maude. Solidão é o forte em Taxi Driver. E o mundo interior que brota disso. Tão propício a fugas. Nova York é a melhor coadjuvante desse conto, desse ensaio. É sua atraente decadência que mais persiste em minha memória.

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