EM BUSCA DE VERDADE E ALEGRIA
Sou eu Sou eu
Into the Wild (2007) põe em cheque a tese (formalista) de que, num filme, ao invés do conteúdo da história (os fatos narrados; a fábula), o que importa mesmo é a maneira como ela é contada. A começar pelo fato de que é uma dramatização de acontecimentos reais – um tanto insólitos e de final trágico, aliás. Não que se possa dizer que a direção de Sean Penn (que também assina o roteiro) não tenha feito a menor diferença, muito pelo contrário. Mas a iminência de uma mensagem, de uma síntese fica sempre à espreita em quem assiste (foi assim comigo, pelo menos) o desenrolar da caminhada do protagonista, a despeito do tanto que há nesse filme para somente ver e sentir, para apenas contemplar.
Adaptação do livro homônimo (1996) de Jon Krakauer, que conta a história (real) de Christopher Johnson McCandless, um jovem de 24 anos encontrado morto num trailer no Alaska após ter viajado por diversas partes do território norte-americano, o filme tem uma estrutura complexa, mas muito bem amarrada, apresentando a trajetória do protagonista (vivido em ótima atuação por Emile Hirsch) através de três narrativas conjugadas: a principal, onde acompanhamos Alexander Supertramp (pseudônimo de Chris) rodando em carona os Estados Unidos, explorando suas paisagens naturais e humanas; uma segunda, narrada em voz over pela irmã de Chris (Carine, vivida por Jena Malone), que reflete retrospectivamente sobre a viagem e a morte dele e sobre a expectativa dos pais de reencontrá-lo; e a terceira, onde testemunhamos o período que Chris viveu no Alaska (113 dias) até sua morte. Na narrativa principal ainda há uma divisão em cinco capítulos (meu nascimento, adolescência, idade adulta, família e adquirindo sabedoria), pontuando o desenvolvimento da personagem em sua viagem.
A divisão em três narrativas parece ter sido muito mais uma solução de necessidade dramatúrgica do que firula virtuosística e, por isso mesmo, (assim achei) se ajusta muito bem ao resultado final, o filme, conferindo-lhe fluidez e, além disso, possibilitando-lhe belas transições, sobretudo entre as narrativas secundárias e a principal, como na do início do primeiro capítulo, quando os planos gerais com o carro de Chris singrando as estradas rumo ao Arizona contam com o eficiente auxílio de Hard Sun, cantada por Eddie Vedder, para contrastar toda sua expansão e liberdade com a tensão e desconforto da seqüência anterior, na qual Chris almoçava e discutia com os pais (interpretados por William Hurt e Marcia Gay Harden). Metade da trilha sonora é composta por canções do primeiro disco solo de Vedder, homônimo ao filme, e ajudam, com seu som folk, a dar base à espiritualidade reflexiva que marca o filme. Algumas faixas, inclusive, contêm letras com função temática (Society).
Apesar dos 148 minutos de duração, Into the Wild conta como uma grande variedade de cenários da geografia norte-americana, um extenso número de coadjuvantes, que vão cruzando com Chris em sua jornada, além da citada divisão em narrativas e capítulos, tudo isso contribuindo para espantar qualquer sinal de monotonia. O fluxo interior de Chris, com suas reflexões sobre a vida, sobre a busca de satisfação, com suas críticas à sociedade, expressas tanto em voz over quanto nas inscrições que deixa como rastro por onde passa ou ainda em seu caderno de anotações, também dinamiza o filme, ao pôr uma filosofia (ou a construção de uma filosofia) pessoal como objeto de compreensão ao espectador, assim como a própria personalidade de Chris. Essa filosofia tem uma ânsia materialista – não no sentido econômico da palavra, mas no físico – que precisa ver, tocar, sentir a parte do mundo físico menos tributária do homem, a natureza. É a filosofia de um letrado, construído em livros, enfadado das relações típicas desenvolvidas em seu lócus (a universidade), mas não do conteúdo de parte deste (aquele mais literário e filosófico, de Thoreau, Jack London ou Tolstoi, leituras e citações habituais de Chris) e desacreditado da imprescindibilidade das relações humanas. Uma personalidade de espírito, por um lado, exercitado em introspecção e, por outro, sedento de experiência estética; interioridade em busca de exterioridade. E essa bifurcação da personagem se estende nos dois elementos mais constantes no filme, o discurso bem literário da voz over (tanto na de Chris quanto na da irmã) e os planos gerais das paisagens com que ele mantém contato. Quando nada no mar da Califórnia do Norte com Jan Burres (Catherine Keener), a amiga hippie que conheceu na estrada, a força das ondas o faz concluir que o importante não é ser forte, mas sentir-se forte apenas com o que se tem, com as próprias mãos, o próprio corpo – e ele prossegue nesse despojamento extremo, que resulta em seu fim precoce.
Penn e sua equipe embarcam também nessa dualidade, recorrendo, por um lado, a leves slow motions nas cenas de contato de Chris com a natureza – o espírito confraternizando com o físico, com a exterioridade – e utilizando, por outro lado, uma câmera ágil (mas sem os (já) tiques, de chicotadas, por exemplo) para captar a ação de Chris nas caçadas e preparo de seus alimentos ou nos momentos mais tensos que ele passa no trailer no Alaska, seu leito de morte. Ao lado da literalidade da voz over – o que inclina o filme um pouco mais para públicos com gosto pela, digamos assim, intelectualidade –, a dualidade se dá também no contraponto possibilitado a ela por uma leveza que permeia o filme – nada de europeizices formalistas –, como no uso de um rockzinho divertido (Going up the country – Canned Heat) em alguma cena que já não lembro mais qual ou do hit dançante U can’t touch this (M. C. Hammer), quando Chris encontra o casal de loiros destrambelhados de Copenhagen. Contribui também para essa leveza o humor nonsense de Chris, como quando ele conversa com a maçã que come. Humor esse que se estende em momentos de um desprendimento também nonsense da direção de Penn, como quando, após comer a maçã, Chris avança o rosto ante a câmera, como se brincasse com o espectador. Penn e Chris fazem questão de dizer que não se prendem a convenções (e, assim, jogam mais iscas a espectadores típicos: nesse caso, os que se agradam com a irreverência). O fato de cada fala dos diálogos ser expressa muito claramente, sem busca de realismos polifônicos (ou de afonismos “de arte”), também ajuda a qualificar o filme como “acessível” (ou seja, acessível ao público típico do cinema, a linda crasse média) e mesmo “comercial”.
*
A primeira vez que ouvi falar sobre algo relacionado a esse filme foi quando um amigo meu (agora, cada vez mais um velho conhecido) me falou sobre o livro de Krakauer, dizendo que gostava da história ali contada. Esse amigo (fã do Pearl Jam, aliás), ao meu ver, era um sério candidato a embarcar numa viagem como a de McCandless (e, talvez, a encontrar o mesmo fim que este). Agora, está casado, com filha, tendo deixado um pouco de lado – senão espiritualmente, no âmbito das relações cotidianas pelo menos – a solidão agreste que o marcava. Eu, por outro lado, ainda estou conectado a esta (daí o tempo livre para escrever essa porra).
Muitas vezes, ou na maioria das vezes (ou seja, para a maioria das pessoas), é o tema que orienta a busca por um filme para assistir. Procuramos algo que se pareça com a gente e, às vezes bobamente acreditando que foi coincidência ter encontrado, as nossas redes de relações, nossos trajetos cotidianos, onde nós nos construímos, nos põem em contato com isso (certamente, a fala do amigo lá atrás exerceu algum efeito na minha escolha desse filme para assistir – e a “escolha” do amigo, antes disso, já me colocava em contato com o filme e, na verdade, comigo mesmo, mesmo que eu ainda não soubesse disso e que o filme nem tivesse sido feito ainda). Nesses casos, pelo menos, a mensagem do filme é algo que importa bastante sim.
Em um dado momento, Carine diz que a motivação de Chris para sua viagem – que resultou em sua morte – não foi apenas revolta ou raiva (aliás, que me pareceram logicamente pouco justificadas pelos problemas na família de Chris – o que me sugere ter havido intenção de compor a personagem também com um pouco de “intolerância alternativa”), mas também busca por aventura. Acho que o lado da leveza do filme – além, obviamente, da emoção expressa por Hirsch nos contatos de Chris com a natureza, entrando no selvagem – busca expressar justamente esse outro lado da história, um lado mais alegre e oposto àquele de maior apelo (o trágico), de um jovem que foge do mundo dos homens em busca do mundo das coisas e assim encontra a morte. Ele a encontrou, mas não a buscou, diz o filme. E a referência da história real é um elemento que, certamente e de alguma forma, afetou a intenção de afirmar isso; de afirmá-lo como aventureiro e não como suicida.
Em outro momento, quando conversa com os amigos hippies Jan e Rainey (Brian H. Dierker), Chris, citando Thoreau, diz que “melhor do que amor, fama, justiça... dê-me verdade”. Era a busca dessa verdade que o motivava a viajar e a passar pela provação de um momento de isolação – que acabou se perpetuando. A citação de Lord Byron no crédito inicial do filme, com o dizer “não amo a humanidade menos, mas a natureza mais” dá uma pista dessa visão de mundo de Chris. Outro momento, mais enfático, é quando conversa com o último amigo que fez na estrada, Ron Franz (Hal Holbrook, também em ótima atuação), o velhinho que quis lhe adotar, e diz que a alegria não vem apenas das relações humanas, mas de tudo que se pode experimentar. A verdade e a alegria que buscava, McCandless pensou encontrar, senão apenas, sobretudo na natureza. Mas às portas da morte, relembrando os encontros humanos que sua viagem lhe proporcionara (todos, apresentados de forma muito intensa), o vemos escrever no seu diário (fonte real para a produção do livro e do filme) a descoberta oferecida por sua busca: a felicidade só é verdadeira quando compartilhada.
De quebra, a letra da canção que achei mais bonita da trilha de Vedder, Rise.
Such is the way of the world
You can never know
Just where to put all your faith
And how will it grow
Gonna rise up
Burning black holes in dark memories
Gonna rise up
Turning mistakes into gold
Such is the passage of time
Too fast to fold
Suddenly swallowed by signs
Low and behold
Gonna rise up
Find my direction magnetically
Gonna rise up
Throw down my ace in the hole
You can never know
Just where to put all your faith
And how will it grow
Gonna rise up
Burning black holes in dark memories
Gonna rise up
Turning mistakes into gold
Such is the passage of time
Too fast to fold
Suddenly swallowed by signs
Low and behold
Gonna rise up
Find my direction magnetically
Gonna rise up
Throw down my ace in the hole





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